Verde Verso

Verde Verso is a blog that publishes the work of Mari Vieira, her short stories, chronicles, poems and "insanities." But we take this space to also disseminate the work of other writers better known. This is a content for to drink and to get drunk because it’s good for the soul. Health! Mari Vieira.

domingo, 20 de maio de 2012

Morador de rua ( Street Dweller)


Por Mari Vieira                  


Um travesseiro de pedra
Um colchão de grama
Um cobertor de fogo
Uma casa ampla.
Casa sem paredes
Teto ornado de estrelas
A brisa te afaga
A chuva te banha
As árvores te aplaudem
Cigarras cantam para ti.
Teu abajur é a lua
És dono do mundo

Morador de rua.

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Street Dweller

                                              By Mari Vieira

A pillow of stone

A mattress of grass

A fire blanket

A large house.

House without walls

Ceiling decorated with stars

The breeze caresses you

The rain will washes you

The trees will applaud you

Cicadas they sing for you.

Your lamp is the moon

You are master of the world

Street Dweller.


domingo, 13 de maio de 2012

Soneto de fidelidade

De Vinícius de Morais



De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.


E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama.


Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Aquela árvore/ That tree/ Quell'albero

    Por Mari Vieira


Aquela árvore

caída por sobre o rio

já não é árvore,

é ponte,

serve de trilha,

de caminho.



E mesmo não sendo

mais árvore,

ainda é lenha

ou abrigo.

E se qualquer destes

não seja,

de criaturas minúsculas

é alimento.



E depois

tornar-se-á

adubo

para outras árvores.



Aquele homem

caído no chão,

já não é homem

nem velho, nem menino.

É um corpo morto

e já não é mais

nada do que era.



Será queimado

ou enterrado,

não adubará plantação

nem servirá de caminho.

Não. Este que um dia foi um homem

de agora em diante,

terá que seguir seu próprio destino,

sozinho.

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That tree
                     By Mari Vieira


That tree
fallen by over river
tree is no longer,
it’s bridge
serves as trail,
Path.


And although not be more tree,
It’s still firewood
or shelter.
And if any of these is not,
of tiny creatures is food.
Then, will become
Fertilizer to other trees.

That man
fallen in ground,
man it is no longer
neither old nor young.
It's a dead body
and it is no longer
nothing that was.

will be burned
or buried,
he will not be manure to plantation 
or will serve as path.
No. this, that one day was a man
from now on,
will have to follow its own destiny,
alone.


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Quell’albero
                        Di Mari Vieira

Quell'albero
caduto sul fiume
non è albero,
è ponte,
serve come un sentiero,
strada.

E mentre non è più albero,
è ancora legno o rifugio.
E se uno di questi non è,
di creature piccolo è il cibo.

Poi, Lei diventerà fertilizzante
per altri alberi.

Quell'uomo steso a terra
Lei non è più
nè vecchio nè giovane.
Si tratta di un cadavere
e non è più niente che era.

Sarà bruciato o sepolto,
piantagione non adubará,
Lei come un percorso non servirò.
No. Questo che era uomo
D'ora in poi,
dovrà seguire il proprio destino,
sola.

Um leitor

 De: Jorge Luís Borges


Que outros se jactem das páginas que escreveram

a mim me orgulham as que tenho lido.

Não fui um filólogo,

não inquiri as declinações, os modos, a penosa

mutação das letras,

o de que se endurece em te,

a equivalência do ge e do ka,

mas ao largo de meus anos professei

a paixão da linguagem.

Minhas noites estão cheias de Virgílio;

ter sabido e ter esquecido

é uma possessão, porque o esquecimento

é uma das formas da memória, seu vago porão,

a outra cara secreta da moeda.

Quando em meus olhos se diluíram

as vãs aparências amadas

os rostos e a página,

dei-me ao estudo da linguagem de ferro

que usaram meus ancestrais para cantar

solidões e espadas,

e agora, através de sete séculos,

desde a última Thule,

tua voz me alcança, Snorri Sturluson.

O jovem, ante o livro, impõe-se uma disciplina exata

e o faz em busca de um conhecimento exato;

a meus anos, toda empresa é uma aventura

que linda como a noite.

Não acabarei de decifrar as antigas línguas do norte,

não fundirei as mãos ávidas no ouro de Sigurd;

e há de acompanhar-me até o fim,

não menos misteriosa que o universo

e que eu, o aprendi.





A Língua Mãe


De: Manoel de Barros


Não sinto o mesmo gosto nas palavras:
oiseau e pássaro.
Embora elas tenham o mesmo sentido.
Será pelo gosto que vem de mãe? de língua mãe?
Seria porque eu não tenha amor pela língua de Flaubert?
Mas eu tenho.
Faço este registro porque tenho a estupefação
De não sentir com a mesma riqueza
As palavras oiseau e pássaro.
Penso que seja porque a palavra pássaro em
mim repercute a infância
E oiseau não repercute.
Penso que a palavra pássaro carrega até hoje
Nela o menino que ia de tarde pra
Debaixo das árvores a ouvir os pássaros.
Nas folhas daquelas árvores não tinha oiseaux
Só tinha pássaros.
É o que me ocorre sobre a língua mãe.

As sem razões do amor

De: Carlos Drummond de Andrade



Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Tristeza do infinito

De: Cruz e Souza



Anda em mim, soturnamente,
uma tristeza ociosa,
sem objetivo, latente,
vaga, indecisa, medrosa.
Como ave torva e sem rumo,
ondula, vagueia, oscila
e sobe em nuvens de fumo
e na minh'alma se asila.

Uma tristeza que eu, mudo,
fico nela meditando
e meditando, por tudo
e em toda a parte sonhando.

Tristeza de não sei donde,
de não sei quando nem como...
flor mortal, que dentro esconde
sementes de um mago pomo.

Dessas tristezas incertas,
esparsas, indefinidas...
como almas vagas, desertas
no rumo eterno das vidas.

Tristeza sem causa forte,
diversa de outras tristezas,
nem da vida nem da morte
gerada nas correntezas...

Tristeza de outros espaços,
de outros céus, de outras esferas,
de outros límpidos abraços,
de outras castas primaveras.

Dessas tristezas que vagam
com volúpias tão sombrias
que as nossas almas alagam
de estranhas melancolias.

Dessas tristezas sem fundo,
sem origens prolongadas,
sem saudades deste mundo,
sem noites, sem alvoradas.

Que principiam no sonho
e acabam na Realidade,
através do mar tristonho
desta absurda Imensidade.

Certa tristeza indizível,
abstrata, como se fosse
a grande alma do Sensível
magoada, mística, doce.

Ah! tristeza imponderável,
abismo, mistério, aflito,
torturante, formidável...
ah! tristeza do Infinito!