Verde Verso

Verde Verso is a blog that publishes the work of Mari Vieira, her short stories, chronicles, poems and "insanities." But we take this space to also disseminate the work of other writers better known. This is a content for to drink and to get drunk because it’s good for the soul. Health! Mari Vieira.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

LUDOVICO

Por Mari Vieira 


Já eram cinco horas da manhã quando Ludovico, seu tio Manelito e o
compadre Jorge pararam na venda do Zé Inácio para o habitual café.

O lugar era ermo, ficava a umas três léguas da vila mais próxima. Em certa
altura, lá na encruzilhada do “pinga-fogo”, defronte à venda do Zé Inácio, só
um caminho conduzia à mina “Poço-Fundo”. Eram umas quebradas tão
silenciosas que se podia ouvir a própria respiração e um canto ou outro
de passarinho. Mas parece que esses bichinhos também tinham medo do lugar.
A prosa era a mesma de sempre, pedras de valor, pedras sem valor, mulheres
e a vontade imensa de serem ricos.
Ludovico caminhava para dezessete anos e mais observava que opinava.
Sempre achara o tio meio esquisito, mas tinha certa admiração por ele.
Percebia nas pessoas não só muito respeito pela pessoa do tio, mas também
um certo medo. E ele também teria, não fosse seu tio aquela figura alta,
esguia, misteriosa... falava pouco, a não ser naqueles momentos quando
paravam para o café, que nada mais era do que pinga e um tira gosto
para esquentar o corpo e animar o dia.
Naquele dia o tio lhe parecera mais especial que nunca, tinha um ar ainda
mais misterioso e quando se despediram do dono da venda como de costume,
o tio disse:
__ Compadre Jorge, Ludovico, vão na frente que eu cá tenho uns assuntos
pra tratar com Zé Inácio e vou logo depois.
Uns quinze minutos mais tarde é que Ludovico se deu conta da resposta
do compadre Jorge:
__ Tá bom compadre Manelito, mas quando o senhor chegar lá, não esqueça
de colocar o feijão no fogo pra ir adiantando, pois hoje temos muito que fazer.
Ludovico se angustiou de curiosidade. Como poderia o tio colocar o feijão no
fogo, se eles chegariam primeiro e tio ficara na venda conversando? Ia
caminhando e mastigando uma folha de capim sem prestar atenção ao
que o compadre Jorge falava.
Não era possível haver um caminho mais curto, pois há dois anos faziam
esse mesmo percurso, matutava.
Seu coração bateu acelerado quando avistou a última curva antes de chegar à
mina e a cabana improvisada que ficava à direita e servia pra guardar
as ferramentas e utensílios que utilizavam. Tinha também um fogão à lenha
onde preparavam as refeições do dia.
Ludovico emudeceu por uns dois dias quando viu a fumaça na chaminé, o feijão
no fogo e o tio Manelito sentado no aterro do fogão à lenha fumando seu
cachimbo tranqüilamente...




sábado, 14 de abril de 2012

Contos de menina: TUCA

Por Mari Vieira

TUCA: "Bicicleta morro abaixo"


Cap. I
Chegou a magrela!



Um dia o primo Mário ganhou uma bicicleta. Não era nova nem nada. Era azul escura com uns pontinhos de ferrugem, tinha um guidão bem grande e rodas de aro 20. Mas era um sonho pedalar e se equilibrar em cima da magrela. E ela era ideal para o primo que era alto e magricelo feito ela. Tuca ficou fascinada.

Passava dias sonhando em aprender andar de bicicleta. Mas Mário era irredutível, não ia lhe ensinar e pronto. A bicicleta era dele e não queria deixar nenhuma menina estúpida e invejosa fazer pose em cima da sua bike.

Tuca por sua vez não desistia e sempre dava um jeitinho de agradá-lo a ver se conseguia convencê-lo a lhe dar uma oportunidade.

A noite sonhava que estava pedalando e no sonho era tudo muito fácil, subia as ruas e descia numa embalada só. Desviava de carros e pessoas velozmente com os cabelos esvoaçando pelo vento. Mas logo acordava desapontada, pois a realidade é que não tinha dinheiro para comprar uma bicicleta e o primo não cedia a nenhuma de suas gentilezas. Nojento! Chato! Egoísta! Pensava em todas as palavras feias que conhecia para xingá-lo em pensamento. Mas não falava nada, pois a esperança não morria nem com bala de canhão. Desejava profundamente que sua avó expulsasse aquele xarope de sua casa. Dessa forma ele voltaria para a sua cidade, para a sua mãe e para a sua gente e ela não precisaria mais aturá-lo como vizinho e muito menos compartilhar sua avó com aquele babaca.

Assim, Tuca passava seu dia a dia entre ir à escola, fazer os deveres de casa, jogar uma partida de queimada com as amigas porque ninguém é de ferro e o tempo que sobrava era para espionar a bicicleta e suspirar de vontade de andar nela. Espionava até ser pega em flagrante pelo primo que lhe assegurava de que nunca iria andar nela e que poderia tirar seu cavalinho da chuva. Então só lhe restava dormir e sonhar.




Cap. II      
A volta que o mundo dá...



Depois de sonhar dormindo e acordada com a bicicleta do primo, Tuca chegou à conclusão de que seria muito difícil andar naquela azulzinha e nem poderia furtá-la por uns momentos, pois ainda não sabia andar e não tinha como aprender.

       Concentrou-se em outras atividades e assim passava o tempo treinando acrobacia com os amigos e amigas em cima do pé de manga. Um tombo ou outro era comum, mas ninguém nunca havia se machucado seriamente. É que Tuca e os amigos gostavam muito de circo e de todas as apresentações, as acrobacias eram o que mais lhes agradava.

       Assim, iam até a mangueira que havia no quintal, subiam um de cada vez, e tentavam se equilibrar num galho usando o peito do pé como apoio estando de cabeça para baixo. Faziam isso sem nem mesmo usar meias. O tombo era quase certo.

       Dessa vez foi Tuca que caiu e bateu a cabeça. Doeu, mas ela não chorou se fazendo de forte. Também se chorasse ninguém ia ficar com pena, perderia o respeito do grupo e ainda corria o risco de levar uma surra da mãe. Por sorte não estava num galho muito alto e ficou apenas com um galo na cabeça por lembrança daquela aventura. Foi o fim da brincadeira, pelo menos naquele dia e todos foram para casa.

Ao entrar em casa Tuca deu de cara com o primo e já foi perguntando:

- O que quer aqui, babaca? Errou de endereço?

A mãe ao ouvir isso ralhou com ela:

- Olha os modos menina, respeita seu primo, viu?     O primo pela primeira vez foi gentil com ela.

- Sabe o que é Tuca... Mas Tuca o interrompeu desaforada:

- Não, não sei não. Não sei e tenho raiva de quem sabe, falou? Disse isso e foi andando em direção ao seu quarto. Mas o primo a seguiu e Tuca atacou:

- Que é? Tá me seguindo? Tá perdido? Cai fora viu, pois não quero saber de papo com você.

O primo não teve alternativa e voltou pra casa da avó de cabeça baixa. E Tuca ficou em seu quarto curtindo a satisfação de ter devolvido os maus tratos dele. Mas quando se acalmou, a imagem da bicicleta azul, enferrujada e querida lhe veio à cabeça e como era muito esperta pensou “e se..., e se o primo mudou de ideia e veio lhe oferecer a bike?” Pronto. Já estava arrependida de tê-lo maltratado. O orgulho era um desastre em sua vida e por causa dele perderia a chance de pedalar a magrela azul. Pôs-se a pensar num jeito de descobrir o que o primo viera fazer em sua casa e o que queria com ela. Mas como descobrir?

Era hora do café da tarde e sua avó costumava fazer na panela uns deliciosos bolos de cará, aqueles assados numa panela de ferro coberta com um prato de brasas sobre a chapa do fogão a lenha. A avó fazia isso para aproveitar o calor das brasas que sobravam após ter feito o almoço. Assava devagarzinho, por baixo e por cima. Era um jeito rural e muito rústico de fazer bolo. E era a desculpa perfeita para Tuca visitar a avó que morava na casa ao lado da sua.

Assim que Tuca entrou na casa da avó, foi direto pra cozinha assuntar se havia bolo de cará. Acertou em cheio. Lá estava a panela coberta com o prato de brasas quase apagadas e as cinzas mornas em baixo também eram um indício de que o bolo já estava pronto. Ela deu um beijo na avó e já foi perguntando:

- É bolo de cará vó?

A avó respondeu que sim, que já ia servir o café e pediu um favor.

– Vá chamar seu primo para tomar café, vá.

Era a ocasião propícia para rondar o primo. Foi até o quarto dele, bateu à porta e mal esperou ele mandar entrar para se enfiar lá dentro. O primo não lhe atacou como esperava. Ao contrário, perguntou calmamente o que ela queria e continuou escrevendo alguma coisa no caderno. Tuca lhe disse que não queria nada com ele, mas a avó estava chamando-o para o café.

Mário se levantou e foi para a cozinha. Tuca seguiu-o e sentou-se à mesa esperando uma oportunidade. Foi aí que a avó lhe salvou:

- Mário, você já pediu à Tuca para lhe ajudar com a matemática?

 Ele fechou a cara e ela continuou:

- Deixa de desavenças menino e pede logo pra sua prima lhe ajudar.

Tuca sorriu de felicidade e disse:

- Que isso vó, é claro que eu ensino pra ele. Parente é pra essas coisas. E depois ele nem vai precisar ficar me devendo favor. É só me ensinar a andar de bicicleta e pronto. Eu o ensino matemática e ele me ensina a andar de bicicleta. Uma mão lava a outra.

A avó concordou e disse:

- É assim que se fala. Está certo então.

Mas o primo não gostou da troca de favores e disse:

- Você não tem bicicleta, como eu vou te ensinar?

Porém a avó de novo interveio:

- Que isso Mário, empresta e ensina a ela. Não vai te custar nada. E ela vai te ensinar matemática que é muito mais difícil. Ou você prefere repetir o ano?

Mário aquiesceu. Não tinha alternativa a não ser ensinar àquela metida andar de bicicleta e ainda por cima na sua bicicleta.

Tuca foi embora, mas ao se despedir disse a ele:

- É primo, são as voltas que o mundo dá...



Cap. III
Bicicleta morro abaixo



       No dia seguinte Tuca acordou feliz e sorridente. De repente, o mundo ficara todo azul. O céu azul, roupa azul, bicicleta azul... Que lindo! Tuca foi para a escola e as horas nunca demoraram tanto a passar. Ela não via a hora das aulas acabarem para ir pra casa aprender andar de bicicleta. Mal ouviu o sinal tocando, saiu disparada em direção a sua casa. Chegou esbaforida, tirou o uniforme e correu pra casa da avó.

       - Primo, primo, pega a bicicleta pra me ensinar. Mas o primo foi inflexível.

       - Primeiro você me ensina matemática e depois...

       - Ah não, primeiro andar de bicicleta...

       Dessa vez a avó não lhe ajudou.

       - Tuca, primeiro o dever, depois a diversão, sim?

       - Está bem vó. Vamos lá traste, prepara os miolos moles pra ver se aprende alguma coisa.

       O que Tuca tinha de sapeca também tinha de inteligência matemática. E contas ela tirava de letra. Era boa nisso e sempre ajudava os amigos na escola. Graças a isso a professora relevava algumas de suas sapequices dentro da sala. E graças a isso saberia ajudar o primo em sua dificuldade e ainda aprenderia andar de bicicleta. Então arregaçou as mangas e debruçou sobre o caderno ao lado do primo decidida a só parar depois que o cabeça dura aprendesse os exercícios. Ele não era burro como ela pensava. Estava apenas atrasado por ter vindo de outra cidade onde o currículo escolar era diferente da sua escola que era considerada uma das melhores da região. E o primo apesar de esforçado estava pagando o preço devido a um sistema de ensino desigual que não contemplava a todos com as mesmas oportunidades.

       Estudaram até depois da hora do jantar e quando pararam estavam exaustos. Só queriam dormir e o primo tinha prova de matemática no dia seguinte. Agora era rezar para que ele fosse bem na prova senão... Não queria nem pensar.

       No seguinte Tuca ficou novamente ansiosa esperando tocar o sinal para deixar a sala de aula. Só que dessa vez não foi para casa. Correu à sala o primo para saber como tinha ido na prova. Mas ele não sabia dizer se tinha ido bem.

       - Como assim? Não sabe? A gente sabe quando sabe alguma coisa. Nós não estudamos? Então você tem que saber!

       - Cala a boca! Não vê que eu estou nervoso? Eu fiquei muito nervoso na hora da prova e não consegui resolver todos os exercícios. Não sei quem foi que inventou essas malditas provas. Não basta estudar? Tem que provar que sabe? E ainda com uma metralhadora na cabeça?

- Metralhadora? Tá doido?

- Fazer prova sendo vigiado e ameaçado de levar zero se olhar para os lados é a mesma coisa, não?

- Não exagera, moleque. Eu te ensinei, estudei com você e você deveria saber os exercícios e não ficar nervoso feito bobo.

- Mas não é que eu não soubesse e eu não sou burro, falou?

       - Desculpa aí primo. Não quis dizer que você é burro. É que fiquei torcendo pra você ir bem na prova.

       - Por que? O que você ganha com isso? Ah, ta com medo de eu não te ensinar andar de bicicleta, eim?

       - Não! Larga de ser idiota. Não vê que meu nome está em jogo? Afinal, fui eu quem te ensinou os exercícios, não? Pois então. Não quero ficar mal falada, mal vista como professora.

       - Ha ha. Vê se cresce. Você terá que estudar muito ainda para ser professora, ouviu? Pensa que é só saber uns exerciciozinhos de matemática e pronto? Professor tem obrigação de saber de ‘tudo’, não é só fazer contas viu?

       - Tá bom, eu exagerei. Mas trato é trato, né? Agora que fez a prova, você vai me ensinar andar de bike.

       - Hoje não. Preciso descansar.

       - Do que? De uma provinha boba? Você é homem ou quê?

       Agora Mário ficou irritado e disse:

- Está bem. Depois do almoço, então.

Mal almoçaram, pegaram a bicicleta azul e saíram de casa. Mário conferiu os pneus a ver se estavam cheios.

Foram em direção ao morro vermelho. Uma estrada quase deserta que era caminho para as áreas rurais da cidade. O começo da estrada era plano, mas uns quinhentos metros adiante tornava-se íngreme e cheia de curvas. Mário foi subindo o morro e Tuca seguindo-o sem se incomodar com o esforço físico. Ele só parou na parte mais alta, no pico do morro. Então deu um sorriso cínico e disse à Tuca:

- É aqui. Pode subir na bicicleta.

Mas Tuca desconfiou e perguntou se ele iria descer o morro segurando-a.

- É claro que sim! Tá doida! Se eu te soltar nesse morro você se espatifa no chão. Mas não vejo jeito melhor de aprender, por que aqui você não terá que fazer força para pedalar. É só se equilibrar e pronto. Eu fico atrás segurando a garupa só pra ter certeza de que não cairá.

Ela montou e desceu. A bicicleta foi ganhando velocidade. Tuca sorria de felicidade, enquanto seus cabelos esvoaçavam como no sonho. Fez uma curva e quase bateu no barranco. Foi por um triz. Agora estava correndo muito. Demais. Não conseguia parar e não sabia o usar o freio. Então gritou:

- Segura primo, senão eu vou caiiiiir....

De repente, estava no chão. Sangrando nos braços, pernas e peito. O guidão havia lhe arranhado o braço e um lado do peito. Estava coberta de poeira vermelha. Olhou pra cima e viu o primo lá no alto do morro. Vinha descendo tranquilamente trazendo consigo um sorriso cínico e maldoso no rosto.

Tuca ficou furiosa.

- Maldito! Você não vai me derrotar assim.

Montou de novo na bicicleta e saiu desembalada e toda ensangüentada pela estrada. Os pés aprenderam a pedalar ninguém sabe como. Nem ela. Só parou ao bater novamente no muro de casa.


Dizem que finjo ou minto

De: Fernando Pessoa
(O cancioneiro)  


Dizem que finjo ou minto
tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
o que me falha ou finda,
é como que um terraço
sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por iso escrevo em meio
do que não está ao pé,
livre do meu enleio,
sério do que não é,
sentir, sinta quem lê.


domingo, 8 de abril de 2012

Eu nomeei-te rainha.


De: Pablo Neruda


Eu nomeei-te rainha.
Existem mais altas do que tu, mais altas.
Mais puras do que tu, mais puras.
Mais belas do que tu, mais belas.

Mas tu és a rainha.

Quando vais pelas ruas
ninguém te reconhece.
Ninguém vê a coroa de cristal, ninguém vê
o tapete de ouro vermelho
que pisas por onde passas,
o tapete que não existe.

E apenas apareces
cantam todos os rios
em meu corpo, as campanas
estremecem o céu,
e um hino enche o mundo.
Somente tu e eu,
somente tu e eu, amor meu,
o escutamos.

O Vosso Tanque General



O Vosso Tanque General, É Um Carro Forte
Derruba uma floresta esmaga cem homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista.


O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar.

Delírios literários


Por Mari Vieira



Oh, Sigmund
Meu coração é volúvel, leviano.
Desde que a Mrs. Jane introduziu-me o Mr. Darcy, que faço eu senão pensar sobre o que é real e o que é imaginário? Quem sou eu que não consigo distingui-los? Deveras se entremearam no meu entorno, temo qualquer dia curvar-me diante de outrem num cumprimento equivocado e ultrapassado. Anseio por quadrilhas e detesto os Bennet. Claro que as misses Jane e Elisabeth estão excluídas. Tenho nojo do Mr. Collins, que homem grotesco e desagradável.
Oh Sigmund
Meu coração é volúvel, leviano.
Sonhei ser princesa, uma rainha, mas diante de Lady Catherine De Bourgh... que ser insuportável, ignorante. E ainda arruma desculpas para si e para a filha. Para que serve mesmo a nobreza? Lá se vão meus sonhos... Ser mulher é ser escolhida e nunca fazer escolhas, portanto nunca saber o preço da renúncia. Bom, já ando delirando. Isso é coisa de Marcel.
Vivo num tempo dos segredos, num tempo dos amores. Ali as montanhas guardam segredos e as cidades, amores impossíveis. Sei que dizes que ‘não há instância alguma acima da razão’, mas que tenho eu com essa palavra? Sou toda emoção. Instintos primitivos. Não tenho trejeitos sociais. Não dou conta deles.
Oh Sigmund minha razão é frágil como uma borboleta. Sensibilidade, não tenho. Que me importa? O inferno são os outros.
Às vezes tenho vontade de ajoelhar-me e rezar. O mundo é cruel e eu posso ser mais cruel que o mundo. Todos podemos. É a natureza, o nosso algoz. Mas sinto tuas palavras me cortando por dentro, açoitando-me. Quem é Deus? Quem o inventou? Oh Sig, deixe-me em paz, eu quero crer e você meu amigo, parece a própria besta destruindo minha fé. Eu te disse, meu coração é volúvel, leviano.
Outro dia pensava em Radcliffe. Me identifico com ele, um amor que transcende a morte, capaz das maiores malvadezas e loucuras. Que uivem os morros, os mortos já não dormem. Quem são os homens que vivem?
Às vezes converso com Alexandre, homens como Dantè não existem mais. Mas os Mondego e Villeford estão por toda a parte. Victor não concorda. Todo homem tem o bem e o mal dentro de si, as circunstâncias fazem prevalecer um ou outro.
 Dantè era bom e tornou-se mal, Jean valjeam era mal e tornou-se bom. Preceitos culturais que o julguem. O homem não é bom nem mal, é homem, é um bicho que por raciocinar tornou-se mais perigoso que os outros. Recusa-se a viver em bandos, gosta de isolar-se. A solidão lhe faz bem. O grupo desperta seus piores instintos, lhe dá coragem. Na solidão ele pode ser ele mesmo. Quem dera cem anos de solidão. Cem anos de introspecção, sem olhos à espreita. Javert nos ronda a todos, busca nosso passado.
De onde vieram as máscaras que promovem o carnaval do mundo, que nos faz vestir fantasias irreais? Oh Sigmund, essa ilusão terá futuro?








O Cão


Por Mari Vieira


Filho de vira-latas. Nasceu num dia qualquer da semana, não me lembro bem a data. Mas lembro como abanava o rabinho, empinava as orelhas e me acompanhava até em casa. Seu passatempo favorito era latir e perseguir automóveis rua afora. Morreu, atropelado por um Fusca 69.