Verde Verso

Verde Verso is a blog that publishes the work of Mari Vieira, her short stories, chronicles, poems and "insanities." But we take this space to also disseminate the work of other writers better known. This is a content for to drink and to get drunk because it’s good for the soul. Health! Mari Vieira.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Mata Atlântica

Por Mari Vieira

Poema para mata atlântica
                                 

Bem defronte ao atlântico
Existia uma mata
Em um clima tropical
Ali ela estava intacta
Recheada de riquezas
Na América do sul
Formava um cordão bem verde
De frente pro mar azul.

No ano de 1500
Esta história começou
Ao chegarem os portugueses
Uma árvore foi cortada
Uma cruz se fabricou
E aí o desmatamento
Desde então não mais parou.
O pau brasil foi levado
Para terras estrangeiras
Hoje está quase extinto
Nesta mata brasileira.

Mata atlântica é tão rica
Em biodiversidade
Mas foi muito destruída
Pra construção de cidades
Resta agora muito pouco
Desta preciosidade.


Construíram muitas vilas
E com a urbanização
Rios foram poluídos
Houve muita erosão
Animais sem habitat
Superpopulação
Culpa do desequilíbrio
Que assolou a nação.


A questão da mata atlântica
É causa de muita polêmica
Por que as suas espécies
Na maior parte é endêmica.
Se é a ignorância
Causa deste grande mal
Saibam: lá tem muitas plantas
De valor medicinal.
Lá existem quaresmeiras,
Orquídeas e bromélias
Patrimônio ambiental
Que só se encontra nela.


O mico-leão-dourado
Também só existe lá
Se não for bem protegido
Desaparecerá.
E a nossa onça pintada
Coitada!
Onde irá habitar?
Se existe um desequilíbrio
Na cadeia alimentar
Quem vai comer as formigas
Se não o tamanduá?


Índios e caiçaras
Caipiras e jangadeiros
Quilombolas e caboclos
São todos bem brasileiros
Vivem da sua cultura
Não têm outro lugar
Se a mata for extinta
Onde eles irão morar
E os seus conhecimentos
Antigos ensinamentos
Como irão se preservar?


Cada árvore cortada
É mais um rio que seca
Peca aquele que agride
Quem se omite também peca
Faz sofrer quem mora longe
Sofre quem mora perto
Cada crime ambiental
Transforma a terra em deserto.
Quem sofre é o próprio homem
Que desmata sem pensar
Pois a natureza pune
A quem não sabe cuidar
Troca ar puro por dinheiro
Como irá respirar?
Sem verde, sem água doce
Como o homem viverá?

E a temperatura da terra
A quantos graus chegará?


Cachorro do mato Vinagre


Saiba mais sobre a mata atlântica:

mataatlantica.wwf.org.br/mataemjogo



Contos de Mulher!

Por Mari Vieira

Tá Pirada, Mulher?
Outro dia ela acordou com o discurso pronto. Bom, acordou é modo de falar, creio que ela nem dormiu, deve ter passado a noite em claro pensando em política, segurança pública, economia, pesquisando na internet, sei lá... 
Não quero dar uma de detetive, mas certas coisas são óbvias com um mínimo de observação. Apesar da maquiagem suas olheiras ainda eram visíveis, o que poderia ser sinal de uma noite mal dormida. Não sei se foi isso. Sei que ela estava alterada, pela forma como relatava o incidente ocorrido no ponto de ônibus.
 – essa porcaria de ônibus sempre atrasa e quando resolve passar, não para. Justo quando a gente mais precisa chegar no horário. Se o mecânico não arrumar a droga do meu carro com urgência, eu troco de oficina. Imagine, não sei se processo o mecânico por lentidão, ou o motorista do ônibus por me deixar presa na porta. Esse sim, é um irresponsável nojento, um insensível, onde já se viu parar fora do ponto? Como posso correr com esses saltos? É isso que dá viver num país de terceiro mundo e de vez em quando depender de lotação.
Ela falava, gesticulava e batia o pé direito no chão num ritmo que lembrava sapateado e como uma torneira aberta deixou jorrar toda a sua ira. Desandou a falar mal do governo, reclamar das taxas de água, luz, telefone, etc. Embora parecesse ter razão em alguns pontos, a dose era excessiva. Não sabia se ficava com pena dela ou se dava risada da situação, escondido, é claro. Já era difícil imaginá-la toda elegante dentro de um lotação, imagine presa na porta. Bom, acho que não ri por puro medo mesmo. Minutos depois ouvi um barulho de coisa se quebrando – “é essa porcaria de vaso que está fora do lugar” – disse ela. Retesei o corpo, continuei em silêncio e por curiosidade olhei de relance e vi a terra esparramada, a violeta com as folhas quebradas e os cacos do vaso no chão. Não sou fã de jardinagem, mas aquela violeta de pétalas rendilhadas, toda lilás e branco era bem bonita. E era o xodó dela. Por um momento pensei que ela fosse apanhar a planta do chão para mais tarde colocar num outro vaso, mas não, ela amassou a flor com os pés como se fosse o tal motorista do ônibus ou quem quer que fosse a razão da sua raiva nesse dia.
Com insegurança pensei que não era eu. Aliás, eu nem havia lhe dado bom dia, não deu tempo. Pela forma como ela entrou na sala mais parecendo um furacão, preferi não arriscar e ela falava de um jeito que me deixava tremendo... Tentei desviar minha atenção para outro lugar, mas o ambiente todo estava tenso que nem dia nublado e quente anunciando um temporal. Evitava olhar nos olhos dela preocupado que deles pudesse sair um relâmpago, por que o trovão ficava por conta da voz.
Na janela, o gato espiava ressabiado parecendo ensaiar uma forma de adentrar o ambiente, afinal ele queria o seu habitual cafuné seguido de um biscoito, mas nesse dia ela parecia outra. Se pudesse teria lhe aconselhado a voltar para o beco onde vivia, mas não tenho esse dom. Não detesto animais, absolutamente, simplesmente não levo o menor jeito com eles. Ela sim, parece falar a língua dos felinos e entre os dois foi amor à primeira vista. Desde então, quase todo dia ele sai do beco e vem chegando de mansinho até receber o bendito cafuné e o biscoito. Em seguida, ela se concentra na papelada e ele vai embora de mansinho como veio, aparentemente feliz. Mas aquele definitivamente não estava sendo um bom dia pra ela e o pobre do gato pelo jeito não fez caso da situação e irracional, entrou na sala assim mesmo pra sair logo depois feito bala, miando como um louco. Acho que levou um sopapo (eu não vi) ou foi só susto pela forma como ela jogava as coisas sobre a mesa. De repente, ela parecia o Maguila. Quanta força! Confesso que não compreendo. E não pensem que sou covarde por não chamar o IBAMA, afinal quem vai acreditar que essa coisinha tão meiga, batom cor de rosa combinando com todo o resto também cor de rosa pode dizer essas coisas: “vou te dar uma porrada no meio da fuça”. Ai! Doeu! Só de ouvir.
Logo depois, sentou-se em frente a uma pilha de documentos – graças a Deus, pensei, agora ela se cala. Mas embora calada, segurava a caneta como um punhal e assinava os papéis como se estivesse escalpelando alguém. O medo faz a gente ver coisas e na minha mente eu começava a ver sangue marcando o papel ao invés da tinta azul da caneta, talvez por que ela continuasse batendo o pé no chão num ritmo que agora me fazia lembrar algum ritual macabro.                                                                            
Eu olhava de soslaio e “em total mudez” quando ela pegou o jornal do dia. Pensei que fosse rasgá-lo tal a violência com que o puxou de sobre a mesa. Arrependi-me, se tivesse adivinhado tê-lo-ia escondido e naquele momento era impossível evitar que ela visse a notícia estampada bem grande na primeira página. Plaaá!!! Ouvi o barulho do jornal batendo contra a mesa. Encolhi-me feito um bebê no útero – essa merda de governo não sabe lidar com esses traficantes. Tem que meter bala neles, atirar pra matar, não é justo a gente ficar sustentando vagabundo na cadeia. E não bastasse isso, continuou o discurso defendendo o George Bush contra o que chamava de admirável coragem do Bin Laden por mandar derrubar as duas torres e bomba nuclear, vejam só, era um acessório imprescindível, afinal, nesse dia ela só queria guerra, queria mesmo era destruir o mundo, desejava ver sangue, muito sangue antes de morrer.                                                                                        
Ficou assim o dia inteiro, nessa desagradável violência verbal e gestual, e eis que de repente o seu desejo se concretizou. Quando foi ao banheiro, lá estava: havia sangue, muito sangue que um banho e um pacote de absorventes resolveram.                    
Ufah! Que alívio! No dia seguinte, ela era a mesma de sempre, cheia de sorrisos, abraços e beijos, meiguinha e gentil. Aliás, gentil apesar de estar sentindo uma leve dor de cabeça. E incrível, ela se comportava como se o dia anterior nunca tivesse existido. Achei melhor esquecer também e nem tocar no assunto para não correr o risco de despertar aquele vulcão aparentemente adormecido.                                      
Mulheres e seus hormônios...
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Esta crônica foi publicada em 2008 no livro "Retratos Urbanos" da editora Andross.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Contos de menina!

Por Mari Vieira

Tuca
(O pé de dinheiro)
Tuca era pequena. Devia ter uns quatro anos e estava encantada com aquelas moedas que lhe proviam doces e picolés.
Era só o pai chegar em casa e ela ia rodeando, rodeando pra pedir uma moeda.
__ Oh menina (malvadeza não, é filho demais pra lembrar o nome) cê pensa que eu tenho pé de dinheiro? Tá aqui, toma essas moedas, mas planta e cuida pra ver se para de me pedir dinheiro.
         Foi o que fez. Correu até a horta e plantou as moedas com muito cuidado. Regava todo dia. Duas semanas depois as moedas não brotavam e Tuca foi consultar o pai.
        __ Pai, estou cuidando direitinho do meu pé de dinheiro, mas ele não nasce!
         Seu pai a desiludiu – Dinheiro não dá em árvore minha filha, senão eu teria um monte. Foi só maneira de falar.
         Tuca saiu em disparada até a horta e teve sua segunda desilusão. Seu irmão mais velho já havia arrancado sua semente de dinheiro e chupado picolé com ela.