Verde Verso

Verde Verso is a blog that publishes the work of Mari Vieira, her short stories, chronicles, poems and "insanities." But we take this space to also disseminate the work of other writers better known. This is a content for to drink and to get drunk because it’s good for the soul. Health! Mari Vieira.

domingo, 8 de setembro de 2013

Poemas de Bertold Brecht

A Cruz de Giz


Eu sou uma criada. Eu tive um romance

Com um homem que era da SA.

Um dia, antes de ir

Ele me mostrou, sorrindo, como fazem

Para pegar os insatisfeitos.

Com um giz tirado do bolso do casaco

Ele fez uma pequena cruz na palma da mão.

Ele contou que assim, e vestido à paisana

anda pelas repartições do trabalho

Onde os empregados fazem fila e xingam

E xinga junto com eles, e fazendo isso

Em sinal de aprovação e solidariedade

Dá um tapinha nas costas do homem que xinga

E este, marcado com a cruz branca

é apanhado pela SA. Nós rimos com isso.

Andei com ele um ano, então descobri

Que ele havia retirado dinheiro

Da minha caderneta de poupança.

Havia dito que a guardaria para mim

Pois os tempos eram incertos.

Quando lhe tomei satisfações, ele jurou

Que suas intenções eram honestas. Dizendo isso

Pôs a mão em meu ombro para me acalmar.

Eu corri, aterrorizada. Em casa

Olhei minhas costas no espelho, para ver

Se não havia uma cruz branca.

domingo, 25 de agosto de 2013

Poemas de Manoel de Barros

Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
A inércia é o meu ato principal.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
O artista é um erro da natureza.  
Beethoven foi um erro perfeito.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Por pudor sou impuro.
Não preciso do fim para chegar.
De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.

Do lugar onde estou já fui embora.


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A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão as seis horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta o lápis,
que vê a uva, etc. etc.

Perdoai
mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.



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domingo, 9 de junho de 2013

O desempregado

     Por Mari Vieira


                 
                 Quando a sirene da fábrica apita
Uma multidão se agita
Se apressa em busca de quase-nada.

Durante dias, todo dia,
Na mesma monotonia,
O pobre se cansava e sorria,
Contente por ter onde trabalhar.
Durante dias, por muitos dias
Foi sua moradia, 
nem conhece outro lugar.

Sua vida inteira se resume: 
num ir e vir,
Num horário marcado 
num cartão picado
Num domingo perdido 
num feriado cansado.

Hoje a sirene da fábrica apita,
A multidão se agita,
Se apressa em busca de quase-nada.
E lá fora, no outro lado da rua
Ele olha entristecido                                         
O que foi metade da sua vida,
Onde nem mesmo é conhecido
E gasta os últimos tostões de tantos anos
De “escravidão democrática”.



Desde que te conheci

Por Mari Vieira

Desde que te conheci
Bebi vinho e lágrimas.
O vinho, de sua boca.
As lágrimas são puramente geográficas.

Desde que te conheci
Sofri de males insondáveis.
Uma doença inexplicável
Que deixa os olhos absortos.

Desde que te conheci
Tudo me parece estranho.
Todas as coisas são novas,
Até mesmo as antigas.

Desde que te conheci
Já não me reconheço.