Por Mari Vieira
Já eram cinco horas da
manhã quando Ludovico, seu tio Manelito e o
compadre Jorge pararam na venda do
Zé Inácio para o habitual café.
O lugar era ermo, ficava a
umas três léguas da vila mais próxima. Em certa
altura, lá na encruzilhada do
“pinga-fogo”, defronte à venda do Zé Inácio, só
um caminho conduzia à mina
“Poço-Fundo”. Eram umas quebradas tão
silenciosas que se podia ouvir a própria
respiração e um canto ou outro
de passarinho. Mas parece que esses bichinhos
também tinham medo do lugar.
A prosa era a mesma de
sempre, pedras de valor, pedras sem valor, mulheres
e a vontade imensa de serem
ricos.
Ludovico caminhava para
dezessete anos e mais observava que opinava.
Sempre achara o tio meio
esquisito, mas tinha certa admiração por ele.
Percebia nas pessoas não só muito
respeito pela pessoa do tio, mas também
um certo medo. E ele também teria, não
fosse seu tio aquela figura alta,
esguia, misteriosa... falava pouco, a não ser
naqueles momentos quando
paravam para o café, que nada mais era do que pinga e
um tira gosto
para esquentar o corpo e animar o dia.
Naquele dia o tio lhe
parecera mais especial que nunca, tinha um ar ainda
mais misterioso e quando se
despediram do dono da venda como de costume,
o tio disse:
__ Compadre Jorge,
Ludovico, vão na frente que eu cá tenho uns assuntos
pra tratar com Zé Inácio e
vou logo depois.
Uns quinze minutos mais
tarde é que Ludovico se deu conta da resposta
do compadre Jorge:
__ Tá bom compadre
Manelito, mas quando o senhor chegar lá, não esqueça
de colocar o feijão no
fogo pra ir adiantando, pois hoje temos muito que fazer.
Ludovico se angustiou de
curiosidade. Como poderia o tio colocar o feijão no
fogo, se eles chegariam
primeiro e tio ficara na venda conversando? Ia
caminhando e mastigando uma
folha de capim sem prestar atenção ao
que o compadre Jorge falava.
Não era possível haver um
caminho mais curto, pois há dois anos faziam
esse mesmo percurso, matutava.
Seu coração bateu
acelerado quando avistou a última curva antes de chegar à
mina e a cabana
improvisada que ficava à direita e servia pra guardar
as ferramentas e
utensílios que utilizavam. Tinha também um fogão à lenha
onde preparavam as
refeições do dia.
Ludovico emudeceu por uns dois dias quando viu a fumaça na
chaminé, o feijão
no fogo e o tio Manelito sentado no aterro do fogão à lenha
fumando seu
cachimbo tranqüilamente...
Nenhum comentário:
Postar um comentário