Cap. I
Chegou
a magrela!
Um
dia o primo Mário ganhou uma bicicleta. Não era nova nem nada. Era azul escura
com uns pontinhos de ferrugem, tinha um guidão bem grande e rodas de aro 20.
Mas era um sonho pedalar e se equilibrar em cima da magrela. E ela era ideal
para o primo que era alto e magricelo feito ela. Tuca ficou fascinada.
Passava
dias sonhando em aprender andar de bicicleta. Mas Mário era irredutível, não ia
lhe ensinar e pronto. A bicicleta era dele e não queria deixar nenhuma menina
estúpida e invejosa fazer pose em cima da sua bike.
Tuca
por sua vez não desistia e sempre dava um jeitinho de agradá-lo a ver se
conseguia convencê-lo a lhe dar uma oportunidade.
A
noite sonhava que estava pedalando e no sonho era tudo muito fácil, subia as
ruas e descia numa embalada só. Desviava de carros e pessoas velozmente com os
cabelos esvoaçando pelo vento. Mas logo acordava desapontada, pois a realidade
é que não tinha dinheiro para comprar uma bicicleta e o primo não cedia a
nenhuma de suas gentilezas. Nojento! Chato! Egoísta! Pensava em todas as
palavras feias que conhecia para xingá-lo em pensamento. Mas não falava nada,
pois a esperança não morria nem com bala de canhão. Desejava profundamente que
sua avó expulsasse aquele xarope de sua casa. Dessa forma ele voltaria para a
sua cidade, para a sua mãe e para a sua gente e ela não precisaria mais
aturá-lo como vizinho e muito menos compartilhar sua avó com aquele babaca.
Assim,
Tuca passava seu dia a dia entre ir à escola, fazer os deveres de casa, jogar
uma partida de queimada com as amigas porque ninguém é de ferro e o tempo que
sobrava era para espionar a bicicleta e suspirar de vontade de andar nela.
Espionava até ser pega em flagrante pelo primo que lhe assegurava de que nunca
iria andar nela e que poderia tirar seu cavalinho da chuva. Então só lhe
restava dormir e sonhar.
Cap. II
A
volta que o mundo dá...
Depois
de sonhar dormindo e acordada com a bicicleta do primo, Tuca chegou à conclusão
de que seria muito difícil andar naquela azulzinha e nem poderia furtá-la por
uns momentos, pois ainda não sabia andar e não tinha como aprender.
Concentrou-se em outras atividades e
assim passava o tempo treinando acrobacia com os amigos e amigas em cima do pé
de manga. Um tombo ou outro era comum, mas ninguém nunca havia se machucado
seriamente. É que Tuca e os amigos gostavam muito de circo e de todas as
apresentações, as acrobacias eram o que mais lhes agradava.
Assim, iam até a mangueira que havia no
quintal, subiam um de cada vez, e tentavam se equilibrar num galho usando o
peito do pé como apoio estando de cabeça para baixo. Faziam isso sem nem mesmo
usar meias. O tombo era quase certo.
Dessa vez foi Tuca que caiu e bateu a
cabeça. Doeu, mas ela não chorou se fazendo de forte. Também se chorasse
ninguém ia ficar com pena, perderia o respeito do grupo e ainda corria o risco
de levar uma surra da mãe. Por sorte não estava num galho muito alto e ficou
apenas com um galo na cabeça por lembrança daquela aventura. Foi o fim da
brincadeira, pelo menos naquele dia e todos foram para casa.
Ao
entrar em casa Tuca deu de cara com o primo e já foi perguntando:
-
O que quer aqui, babaca? Errou de endereço?
A
mãe ao ouvir isso ralhou com ela:
-
Olha os modos menina, respeita seu primo, viu? O
primo pela primeira vez foi gentil com ela.
-
Sabe o que é Tuca... Mas Tuca o interrompeu desaforada:
-
Não, não sei não. Não sei e tenho raiva de quem sabe, falou? Disse isso e foi
andando em direção ao seu quarto. Mas o primo a seguiu e Tuca atacou:
-
Que é? Tá me seguindo? Tá perdido? Cai fora viu, pois não quero saber de papo
com você.
O
primo não teve alternativa e voltou pra casa da avó de cabeça baixa. E Tuca
ficou em seu quarto curtindo a satisfação de ter devolvido os maus tratos dele.
Mas quando se acalmou, a imagem da bicicleta azul, enferrujada e querida lhe
veio à cabeça e como era muito esperta pensou “e se..., e se o primo mudou de
ideia e veio lhe oferecer a bike?” Pronto. Já estava arrependida de tê-lo
maltratado. O orgulho era um desastre em sua vida e por causa dele perderia a
chance de pedalar a magrela azul. Pôs-se a pensar num jeito de descobrir o que
o primo viera fazer em sua casa e o que queria com ela. Mas como descobrir?
Era
hora do café da tarde e sua avó costumava fazer na panela uns deliciosos bolos
de cará, aqueles assados numa panela de ferro coberta com um prato de brasas sobre
a chapa do fogão a lenha. A avó fazia isso para aproveitar o calor das brasas
que sobravam após ter feito o almoço. Assava devagarzinho, por baixo e por
cima. Era um jeito rural e muito rústico de fazer bolo. E era a desculpa
perfeita para Tuca visitar a avó que morava na casa ao lado da sua.
Assim
que Tuca entrou na casa da avó, foi direto pra cozinha assuntar se havia bolo
de cará. Acertou em cheio. Lá estava a panela coberta com o prato de brasas
quase apagadas e as cinzas mornas em baixo também eram um indício de que o bolo
já estava pronto. Ela deu um beijo na avó e já foi perguntando:
-
É bolo de cará vó?
A
avó respondeu que sim, que já ia servir o café e pediu um favor.
–
Vá chamar seu primo para tomar café, vá.
Era
a ocasião propícia para rondar o primo. Foi até o quarto dele, bateu à porta e
mal esperou ele mandar entrar para se enfiar lá dentro. O primo não lhe atacou
como esperava. Ao contrário, perguntou calmamente o que ela queria e continuou escrevendo
alguma coisa no caderno. Tuca lhe disse que não queria nada com ele, mas a avó
estava chamando-o para o café.
Mário
se levantou e foi para a cozinha. Tuca seguiu-o e sentou-se à mesa esperando
uma oportunidade. Foi aí que a avó lhe salvou:
-
Mário, você já pediu à Tuca para lhe ajudar com a matemática?
Ele fechou a cara e ela continuou:
-
Deixa de desavenças menino e pede logo pra sua prima lhe ajudar.
Tuca
sorriu de felicidade e disse:
-
Que isso vó, é claro que eu ensino pra ele. Parente é pra essas coisas. E
depois ele nem vai precisar ficar me devendo favor. É só me ensinar a andar de
bicicleta e pronto. Eu o ensino matemática e ele me ensina a andar de bicicleta.
Uma mão lava a outra.
A
avó concordou e disse:
-
É assim que se fala. Está certo então.
Mas
o primo não gostou da troca de favores e disse:
-
Você não tem bicicleta, como eu vou te ensinar?
Porém
a avó de novo interveio:
-
Que isso Mário, empresta e ensina a ela. Não vai te custar nada. E ela vai te
ensinar matemática que é muito mais difícil. Ou você prefere repetir o ano?
Mário
aquiesceu. Não tinha alternativa a não ser ensinar àquela metida andar de
bicicleta e ainda por cima na sua bicicleta.
Tuca
foi embora, mas ao se despedir disse a ele:
-
É primo, são as voltas que o mundo dá...
Cap. III
Bicicleta morro abaixo
No dia seguinte Tuca acordou feliz e
sorridente. De repente, o mundo ficara todo azul. O céu azul, roupa azul,
bicicleta azul... Que lindo! Tuca foi para a escola e as horas nunca demoraram
tanto a passar. Ela não via a hora das aulas acabarem para ir pra casa aprender
andar de bicicleta. Mal ouviu o sinal tocando, saiu disparada em direção a sua
casa. Chegou esbaforida, tirou o uniforme e correu pra casa da avó.
- Primo, primo, pega a bicicleta pra me
ensinar. Mas o primo foi inflexível.
- Primeiro você me ensina matemática e
depois...
- Ah não, primeiro andar de bicicleta...
Dessa vez a avó não lhe ajudou.
- Tuca, primeiro o dever, depois a diversão,
sim?
- Está bem vó. Vamos lá traste, prepara
os miolos moles pra ver se aprende alguma coisa.
O que Tuca tinha de sapeca também tinha
de inteligência matemática. E contas ela tirava de letra. Era boa nisso e
sempre ajudava os amigos na escola. Graças a isso a professora relevava algumas
de suas sapequices dentro da sala. E graças a isso saberia ajudar o primo em
sua dificuldade e ainda aprenderia andar de bicicleta. Então arregaçou as
mangas e debruçou sobre o caderno ao lado do primo decidida a só parar depois
que o cabeça dura aprendesse os exercícios. Ele não era burro como ela pensava.
Estava apenas atrasado por ter vindo de outra cidade onde o currículo escolar
era diferente da sua escola que era considerada uma das melhores da região. E o
primo apesar de esforçado estava pagando o preço devido a um sistema de ensino
desigual que não contemplava a todos com as mesmas oportunidades.
Estudaram até depois da hora do jantar e
quando pararam estavam exaustos. Só queriam dormir e o primo tinha prova de
matemática no dia seguinte. Agora era rezar para que ele fosse bem na prova
senão... Não queria nem pensar.
No seguinte Tuca ficou novamente ansiosa
esperando tocar o sinal para deixar a sala de aula. Só que dessa vez não foi
para casa. Correu à sala o primo para saber como tinha ido na prova. Mas ele
não sabia dizer se tinha ido bem.
- Como assim? Não sabe? A gente sabe
quando sabe alguma coisa. Nós não estudamos? Então você tem que saber!
- Cala a boca! Não vê que eu estou
nervoso? Eu fiquei muito nervoso na hora da prova e não consegui resolver todos
os exercícios. Não sei quem foi que inventou essas malditas provas. Não basta
estudar? Tem que provar que sabe? E ainda com uma metralhadora na cabeça?
-
Metralhadora? Tá doido?
-
Fazer prova sendo vigiado e ameaçado de levar zero se olhar para os lados é a
mesma coisa, não?
-
Não exagera, moleque. Eu te ensinei, estudei com você e você deveria saber os
exercícios e não ficar nervoso feito bobo.
-
Mas não é que eu não soubesse e eu não sou burro, falou?
- Desculpa aí primo. Não quis dizer que
você é burro. É que fiquei torcendo pra você ir bem na prova.
- Por que? O que você ganha com isso? Ah,
ta com medo de eu não te ensinar andar de bicicleta, eim?
- Não! Larga de ser idiota. Não vê que
meu nome está em jogo? Afinal, fui eu quem te ensinou os exercícios, não? Pois
então. Não quero ficar mal falada, mal vista como professora.
- Ha ha. Vê se cresce. Você terá que
estudar muito ainda para ser professora, ouviu? Pensa que é só saber uns
exerciciozinhos de matemática e pronto? Professor tem obrigação de saber de ‘tudo’,
não é só fazer contas viu?
- Tá bom, eu exagerei. Mas trato é trato,
né? Agora que fez a prova, você vai me ensinar andar de bike.
- Hoje não. Preciso descansar.
- Do que? De uma provinha boba? Você é
homem ou quê?
Agora Mário ficou irritado e disse:
-
Está bem. Depois do almoço, então.
Mal
almoçaram, pegaram a bicicleta azul e saíram de casa. Mário conferiu os pneus a
ver se estavam cheios.
Foram
em direção ao morro vermelho. Uma estrada quase deserta que era caminho para as
áreas rurais da cidade. O começo da estrada era plano, mas uns quinhentos
metros adiante tornava-se íngreme e cheia de curvas. Mário foi subindo o morro e
Tuca seguindo-o sem se incomodar com o esforço físico. Ele só parou na parte
mais alta, no pico do morro. Então deu um sorriso cínico e disse à Tuca:
-
É aqui. Pode subir na bicicleta.
Mas
Tuca desconfiou e perguntou se ele iria descer o morro segurando-a.
-
É claro que sim! Tá doida! Se eu te soltar nesse morro você se espatifa no
chão. Mas não vejo jeito melhor de aprender, por que aqui você não terá que
fazer força para pedalar. É só se equilibrar e pronto. Eu fico atrás segurando
a garupa só pra ter certeza de que não cairá.
Ela
montou e desceu. A bicicleta foi ganhando velocidade. Tuca sorria de
felicidade, enquanto seus cabelos esvoaçavam como no sonho. Fez uma curva e
quase bateu no barranco. Foi por um triz. Agora estava correndo muito. Demais.
Não conseguia parar e não sabia o usar o freio. Então gritou:
-
Segura primo, senão eu vou caiiiiir....
De
repente, estava no chão. Sangrando nos braços, pernas e peito. O guidão havia
lhe arranhado o braço e um lado do peito. Estava coberta de poeira vermelha.
Olhou pra cima e viu o primo lá no alto do morro. Vinha descendo tranquilamente
trazendo consigo um sorriso cínico e maldoso no rosto.
Tuca
ficou furiosa.
-
Maldito! Você não vai me derrotar assim.
Montou
de novo na bicicleta e saiu desembalada e toda ensangüentada pela estrada. Os
pés aprenderam a pedalar ninguém sabe como. Nem ela. Só parou ao bater
novamente no muro de casa.
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