Oh,
Sigmund
Meu
coração é volúvel, leviano.
Desde
que a Mrs. Jane introduziu-me o Mr. Darcy, que faço eu senão pensar sobre o que
é real e o que é imaginário? Quem sou eu que não consigo distingui-los? Deveras
se entremearam no meu entorno, temo qualquer dia curvar-me diante de outrem num
cumprimento equivocado e ultrapassado. Anseio por quadrilhas e detesto os Bennet.
Claro que as misses Jane e Elisabeth estão excluídas. Tenho nojo do Mr.
Collins, que homem grotesco e desagradável.
Oh
Sigmund
Meu
coração é volúvel, leviano.
Sonhei
ser princesa, uma rainha, mas diante de Lady Catherine De Bourgh... que ser
insuportável, ignorante. E ainda arruma desculpas para si e para a filha. Para
que serve mesmo a nobreza? Lá se vão meus sonhos... Ser mulher é ser escolhida
e nunca fazer escolhas, portanto nunca saber o preço da renúncia. Bom, já ando
delirando. Isso é coisa de Marcel.
Vivo
num tempo dos segredos, num tempo dos amores. Ali as montanhas guardam segredos
e as cidades, amores impossíveis. Sei que dizes que ‘não há instância alguma acima
da razão’, mas que tenho eu com essa palavra? Sou toda emoção. Instintos
primitivos. Não tenho trejeitos sociais. Não dou conta deles.
Oh
Sigmund minha razão é frágil como uma borboleta. Sensibilidade, não tenho. Que me
importa? O inferno são os outros.
Às
vezes tenho vontade de ajoelhar-me e rezar. O mundo é cruel e eu posso ser mais
cruel que o mundo. Todos podemos. É a natureza, o nosso algoz. Mas sinto tuas
palavras me cortando por dentro, açoitando-me. Quem é Deus? Quem o inventou? Oh
Sig, deixe-me em paz, eu quero crer e você meu amigo, parece a própria besta
destruindo minha fé. Eu te disse, meu coração é volúvel, leviano.
Outro
dia pensava em Radcliffe. Me identifico com ele, um amor que transcende a morte,
capaz das maiores malvadezas e loucuras. Que uivem os morros, os mortos já não
dormem. Quem são os homens que vivem?
Às
vezes converso com Alexandre, homens como Dantè não existem mais. Mas os
Mondego e Villeford estão por toda a parte. Victor não concorda. Todo homem tem
o bem e o mal dentro de si, as circunstâncias fazem prevalecer um ou outro.
Dantè
era bom e tornou-se mal, Jean valjeam era mal e tornou-se bom. Preceitos
culturais que o julguem. O homem não é bom nem mal, é homem, é um bicho que por
raciocinar tornou-se mais perigoso que os outros. Recusa-se a viver em bandos,
gosta de isolar-se. A solidão lhe faz bem. O grupo desperta seus piores
instintos, lhe dá coragem. Na solidão ele pode ser ele mesmo. Quem dera cem
anos de solidão. Cem anos de introspecção, sem olhos à espreita. Javert nos
ronda a todos, busca nosso passado.
De
onde vieram as máscaras que promovem o carnaval do mundo, que nos faz vestir
fantasias irreais? Oh Sigmund, essa ilusão terá futuro?
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