Verde Verso

Verde Verso is a blog that publishes the work of Mari Vieira, her short stories, chronicles, poems and "insanities." But we take this space to also disseminate the work of other writers better known. This is a content for to drink and to get drunk because it’s good for the soul. Health! Mari Vieira.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Contos de Mulher!

Por Mari Vieira

Tá Pirada, Mulher?
Outro dia ela acordou com o discurso pronto. Bom, acordou é modo de falar, creio que ela nem dormiu, deve ter passado a noite em claro pensando em política, segurança pública, economia, pesquisando na internet, sei lá... 
Não quero dar uma de detetive, mas certas coisas são óbvias com um mínimo de observação. Apesar da maquiagem suas olheiras ainda eram visíveis, o que poderia ser sinal de uma noite mal dormida. Não sei se foi isso. Sei que ela estava alterada, pela forma como relatava o incidente ocorrido no ponto de ônibus.
 – essa porcaria de ônibus sempre atrasa e quando resolve passar, não para. Justo quando a gente mais precisa chegar no horário. Se o mecânico não arrumar a droga do meu carro com urgência, eu troco de oficina. Imagine, não sei se processo o mecânico por lentidão, ou o motorista do ônibus por me deixar presa na porta. Esse sim, é um irresponsável nojento, um insensível, onde já se viu parar fora do ponto? Como posso correr com esses saltos? É isso que dá viver num país de terceiro mundo e de vez em quando depender de lotação.
Ela falava, gesticulava e batia o pé direito no chão num ritmo que lembrava sapateado e como uma torneira aberta deixou jorrar toda a sua ira. Desandou a falar mal do governo, reclamar das taxas de água, luz, telefone, etc. Embora parecesse ter razão em alguns pontos, a dose era excessiva. Não sabia se ficava com pena dela ou se dava risada da situação, escondido, é claro. Já era difícil imaginá-la toda elegante dentro de um lotação, imagine presa na porta. Bom, acho que não ri por puro medo mesmo. Minutos depois ouvi um barulho de coisa se quebrando – “é essa porcaria de vaso que está fora do lugar” – disse ela. Retesei o corpo, continuei em silêncio e por curiosidade olhei de relance e vi a terra esparramada, a violeta com as folhas quebradas e os cacos do vaso no chão. Não sou fã de jardinagem, mas aquela violeta de pétalas rendilhadas, toda lilás e branco era bem bonita. E era o xodó dela. Por um momento pensei que ela fosse apanhar a planta do chão para mais tarde colocar num outro vaso, mas não, ela amassou a flor com os pés como se fosse o tal motorista do ônibus ou quem quer que fosse a razão da sua raiva nesse dia.
Com insegurança pensei que não era eu. Aliás, eu nem havia lhe dado bom dia, não deu tempo. Pela forma como ela entrou na sala mais parecendo um furacão, preferi não arriscar e ela falava de um jeito que me deixava tremendo... Tentei desviar minha atenção para outro lugar, mas o ambiente todo estava tenso que nem dia nublado e quente anunciando um temporal. Evitava olhar nos olhos dela preocupado que deles pudesse sair um relâmpago, por que o trovão ficava por conta da voz.
Na janela, o gato espiava ressabiado parecendo ensaiar uma forma de adentrar o ambiente, afinal ele queria o seu habitual cafuné seguido de um biscoito, mas nesse dia ela parecia outra. Se pudesse teria lhe aconselhado a voltar para o beco onde vivia, mas não tenho esse dom. Não detesto animais, absolutamente, simplesmente não levo o menor jeito com eles. Ela sim, parece falar a língua dos felinos e entre os dois foi amor à primeira vista. Desde então, quase todo dia ele sai do beco e vem chegando de mansinho até receber o bendito cafuné e o biscoito. Em seguida, ela se concentra na papelada e ele vai embora de mansinho como veio, aparentemente feliz. Mas aquele definitivamente não estava sendo um bom dia pra ela e o pobre do gato pelo jeito não fez caso da situação e irracional, entrou na sala assim mesmo pra sair logo depois feito bala, miando como um louco. Acho que levou um sopapo (eu não vi) ou foi só susto pela forma como ela jogava as coisas sobre a mesa. De repente, ela parecia o Maguila. Quanta força! Confesso que não compreendo. E não pensem que sou covarde por não chamar o IBAMA, afinal quem vai acreditar que essa coisinha tão meiga, batom cor de rosa combinando com todo o resto também cor de rosa pode dizer essas coisas: “vou te dar uma porrada no meio da fuça”. Ai! Doeu! Só de ouvir.
Logo depois, sentou-se em frente a uma pilha de documentos – graças a Deus, pensei, agora ela se cala. Mas embora calada, segurava a caneta como um punhal e assinava os papéis como se estivesse escalpelando alguém. O medo faz a gente ver coisas e na minha mente eu começava a ver sangue marcando o papel ao invés da tinta azul da caneta, talvez por que ela continuasse batendo o pé no chão num ritmo que agora me fazia lembrar algum ritual macabro.                                                                            
Eu olhava de soslaio e “em total mudez” quando ela pegou o jornal do dia. Pensei que fosse rasgá-lo tal a violência com que o puxou de sobre a mesa. Arrependi-me, se tivesse adivinhado tê-lo-ia escondido e naquele momento era impossível evitar que ela visse a notícia estampada bem grande na primeira página. Plaaá!!! Ouvi o barulho do jornal batendo contra a mesa. Encolhi-me feito um bebê no útero – essa merda de governo não sabe lidar com esses traficantes. Tem que meter bala neles, atirar pra matar, não é justo a gente ficar sustentando vagabundo na cadeia. E não bastasse isso, continuou o discurso defendendo o George Bush contra o que chamava de admirável coragem do Bin Laden por mandar derrubar as duas torres e bomba nuclear, vejam só, era um acessório imprescindível, afinal, nesse dia ela só queria guerra, queria mesmo era destruir o mundo, desejava ver sangue, muito sangue antes de morrer.                                                                                        
Ficou assim o dia inteiro, nessa desagradável violência verbal e gestual, e eis que de repente o seu desejo se concretizou. Quando foi ao banheiro, lá estava: havia sangue, muito sangue que um banho e um pacote de absorventes resolveram.                    
Ufah! Que alívio! No dia seguinte, ela era a mesma de sempre, cheia de sorrisos, abraços e beijos, meiguinha e gentil. Aliás, gentil apesar de estar sentindo uma leve dor de cabeça. E incrível, ela se comportava como se o dia anterior nunca tivesse existido. Achei melhor esquecer também e nem tocar no assunto para não correr o risco de despertar aquele vulcão aparentemente adormecido.                                      
Mulheres e seus hormônios...
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Esta crônica foi publicada em 2008 no livro "Retratos Urbanos" da editora Andross.

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